
Ele aprendeu a pintar o seu mundo com os pés. Também desenha, faz origami e colagens revelando um talento e habilidade que poucos têm com as mãos.
Quem visita o Centro Internacional Sarah de Neurorreabilitação e Neurociências – unidade de referência da Rede Sarah de hospitais de reabilitação, situada na Barra da Tijuca -, se encanta com os quadros que decoram os corredores entre o hall de entrada e os ambulatórios. Já os pacientes são tomado por um fascínio diferente, como se cada uma daquelas telas fosse uma injeção de ânimo para superar as dificuldades da vida.

Os quadros fazem parte da exposição “Pés Para Voar” e são assinados por Victor Pesant, 28 anos, que usou os pés para pintá-los. Alguns são tão perfeitos, como o retrato que o pintor dedicou à sua mãe, que parecem fotografias, tal o esmero nos detalhes. Apesar de não estar aberta ao público, a exposição de Pesant estará no Rio até o final de dezembro. Curiosidade: os pés, marca registrada do artista, estão em seu sobrenome.
Victor Pesant é portador de paralisia cerebral do tipo coreoatetose. O termo é usado para definir a associação de movimentos involuntários contínuos, uniformes e lentos (atetósicos) e rápidos, arrítmicos e de início súbito (coreicos). Seus músculos ficam retesados, provocando movimentos bruscos dos braços e das mãos, principalmente. Os músculos da face, enrijecidos, também prejudicam a fala e são poucos os que conseguem entender as suas palavras. No entanto, a outra parte do cérebro funciona perfeitamente bem, abrindo luz para uma genialidade que poucos possuem.
A avó, Maurina Cruz, e a mãe, Eliete Santos, sempre quebraram lanças para ajudá-lo. Primeiro, na Ação Comunitária do Brasil, na Vila do João, onde Victor pintou e comercializou as suas primeiras gravuras; depois, quando bateram à porta da Rede Sarah. Victor chegou com apenas 11 anos e já impressionou os médicos, porque nunca aceitou ser tratado como um “coitadinho”. Se não podia usar as mãos para desenvolver a sua arte, quem sabe a boca? A experiência também não foi das melhores. E os pés? Maravilha! Sempre funcionaram com raro talento.
Através do Sarah, Victor chegou à Associação de Pintores com a Boca e os Pés, onde pode burilar as suas técnicas: desenha, pinta, faz origamis e colagens. Determinado, o artista não se dá por satisfeito. Agora, além da pintura, pratica a arte da dança também, adequando-a à limitação de seus movimentos – imprevisíveis, indomáveis, revolucionariamente contemporâneos!
“Não sou um coitadinho“

No início de março, quando a professora de Artes Aline Gama e outros profissionais do Sarah acabavam de organizar a exposição de Pesant, nasceu a ideia de fazer uma entrevista com o artista. Ela foi publicada nos paineis onde estão expostos os quadros, com o artista contando a sua própria história e defendendo os seus pontos de vista.
Quando despertou a sua paixão pelo desenho?
VP – Foi na época que eu levava o desenho como uma brincadeira de criança, como uma distração, tanto em casa como na escola. Aos 7 anos percebi que gostava de desenhar e pintar, e que gostaria de fazer um curso.
E a vontade de se tornar um artista?
VP – Quando criança percebi a arte como uma ferramenta para solucionar os meus problemas, pois eu não aceitava a condição de coitadinho. As pessoas falavam :”Tadinho, ele é doente…” E eu respondia: “Tadinho de tu, doente é a sua mente.”
Pela arte queria mudar a condição da minha vida, pois poderia mostrar que a minha potência é maior que a minha deficiência. Não quero que ninguém me trate com superioridade ou inferioridade.
De que forma aconteceu sua trajetória artística?
VP – Aos 9 anos comecei um curso de desenho na Ação Comunitária do Brasil, onde morávamos, na Vila do João, na Maré. Estudei lá em torno de dois a três anos. Neste curso pintei um Papai Noel que virou um cartão de Natal, que rendeu recursos para a ACB e para mim também.

E a importância da Rede Sarah?
Vocês me incentivaram a estudar pintura fora do Sarah, também. Foi quando iniciei o estudo com o artista Ricardo Chancafe. Foi com vocês também que comecei a me preparar para enviar os trabalhos à Associação de Pintores com a Boca e os Pés (APBP).
Entre 2009 e 2011 também estudei grafite, filosofia, design de interiores, adereços de carnaval… Num projeto social com o patrocínio da Petrobrás, oferecido aos estudantes das escolas da região. Ainda tinha uma bolsa. Foi uma fase muito enriquecedora.
E quando aconteceu o seu interesse pela dança?
VP -Foi nesta fase também, a partir do convite da bailarina e coreógrafa Tereza Taquechel, para a participar de uma oficina de dança no Teatro Cacilda Becker.
Depois, fui convidado por ela para estagiar na Companhia de Dança Pulsar, no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro. Após o estágio, me tornei bailarino e criei a performance “telas vivas” onde pinto os corpos dos bailarinos.